Petrov e o pensamento ultrapassado e conservador de um país

Nas últimas duas semanas, um dos principais assuntos da Formula 1 foi a manifestação de Lewis Hamilton no pódio do GP de Mugello.

O piloto inglês se manifestou pedindo cadeia para os policiais que mataram Breonna Taylor durante uma operação que envolvia um ex-namorado suspeito de trafico de Drogas e que já teria sido condenado. Em uma operação brutal, os policiais deram 8 tiros na jovem que tinha 26 anos e que estava dormindo no momento da sua morte. Os policiais disseram que chamaram ela várias vezes, mas vizinhos de condomínio disseram que os policiais chamara polícia só uma vez e depois arrobaram a porta do apartamento de Breonna e deram os tiros que mataram a técnica de emergências médicas que tinha sonho de ser enfermeira.

Esse manifesto chegou a ser investigado pela FIA, por ter violado o artigo 1.2 do seu estatuto, o órgão diz que “vai evitar se manifestar sobre discriminação por raça, cor, gênero, orientação sexual, etnia, idioma, religião, filosofia, política, situação familiar ou deficiência em suas atividades”. Lewis Hamilton disse que não iria parar com as manifestações. A entidade acabou recuando na investigação.

Parecia que esse episódio já tinha sido pagina enviada. Porém, nessa semana o piloto Vitaly Petrov, primeiro russo a correr na Formula 1 (Renault 2010-2011 e Caterham 2012)  disse ao site “Championat” que Lewis Hamilton “foi longe demais quando pediu a todos que se ajoelhassem” Petrov que corre pela SMP Racing pelo endurance disse que metade dos adeptos não sabiam nem do que aconteceu até que tivesse uma explicação… E ai, o que ele falou a seguir é inacreditável. “E se um piloto admitir que é homossexual, Hamilton irá usar uma bandeira arco-íris para incentivar todos a serem homossexuais também? Acho que a FIA não vai permitir mais este tipo de comportamento”.

Petrov falou que no seu país as coisas são diferentes e que é preciso respeitar as leis de cada país. Na Rússia, Atleta ou adepto que seja homossexual ou defensor dos direitos LGBT pode ser preso por 14 dias. Caso seja estrangeiro, o cidadão pode ser expulso se ficar provado de envolvimento na divulgação de propaganda homossexual.

Petrov se posicionou contra o movimento ‘Black Lives Mater’, depois falou sobre as tradições russas: “Segundo as nossas tradições, só se pode ajoelhar em duas ocasiões: num tempo perante Deus e quando pedimos a nossa namorada em casamento. Na Rússia, temos uma mentalidade diferente e não temos os problemas [de racismo] de que Hamilton fala. Tem que haver respeito por todos”

Os Russos não se ajoelham por uma questão histórica. Eles interpretam o ato de se ajoelhar como um sinal de submissão. Isso, se monta entre o século 13 e 14, quando as terras russas foram dominadas pelo Império Mongol e pela Horda de Ouro. Quando o governante mongol e fundador da Horda Dourada, Batu Khan, invadiu a Rus Kievana, no período de 1237-1242, os príncipes russos se tornaram politicamente dependentes da vontade do cã. os príncipes Russos eram forçados a se ajoelhar ao soberano que dominou as suas terras. De certo modo, Isso fazia a reedição da tradição medieval de homenagem, uma cerimônia em que um vassalo promete sua lealdade, reverência e submissão ao seu senhor feudal. Parte desse texto foi pego do site: https://br.rbth.com/estilo-de-vida/84104-por-que-russos-nao-ajoelham-protesto (Russia Beyond BR)

Minha opinião: Tudo bem que a Rússia temos uma tradição e um contexto histórico diferente. Porém, a Rússia esta em termos de costumes atrasado em mais de 100 anos. Na maioria do mundo as coisas mudaram não se pode e nem devemos admitir discursos violentos de pessoas conservadoras e retrogradas. Sobre o Petrov, além de ser contra a um momento legitimo ele acabou sendo grosseiramente homofóbico. A fala dele se retratando caso tivéssemos um homossexual na Formula 1 (Até parece que nunca tivemos ou não temos piloto, engenheiro ou mecânico Gay trabalhando entre as 10 equipes ou no circo da Formula 1) é de uma grosseria sem tamanho, em grande parte do mundo Petrov iria para a cadeia, já que homofobia é crime. Infelizmente no Brasil, esse piloto seria chamado de mito e de representante da extrema direita no esporte a motor.

O esporte a motor no Brasil é ultraconservador, na maioria dos casos os pilotos são pessoas grosseiras, preconceituosas, não conseguem dialogar com a realidade. Alguns pilotos são adesistas ao governo que destroem florestas e se alinham a uma linha negacionista da realidade. Logo que Hamilton falou sobre as queimadas da Floresta amazônica, o piloto Lucas di Grassi questionou Hamilton e outros pilotos brasileiros começaram a implicar com Lewis. No começo da temporada da Formula 1, um outro piloto (no qual não cito o nome dele, mas é um piloto medíocre da Stock Car que apoiou Bolsonaro e até tirou foto) de forma tendenciosa questionou a manobra de Hamilton com Alexander Albon no final do GP da Áustria, 1ªetapa da temporada. Pelo menos, um piloto não passa pano para esse obscurantismo, ele se chama João Paulo de Oliveira.

Não tem justificativa para proibir uma manifestação racista ou tentar inibir os manifestos mais do que justos de Lewis Hamilton. Prestes a superar o recorde de vitórias de Michael Schumacher, o único piloto negro a disputar a Formula 1 nos seus 70 anos de história esta enfrentando essa frente de trabalho que não é fácil de lutar. Acreditem nisso, Hamilton não tem o apoio da FIA pra valer. A Federação Internacional de Automobilismo negocia com países como Arábia Saudita para levar o circo da categoria até lá. Um país que vive uma ditadura, condenável e que viola os direitos humanos. Tem corridas em países onde não se vive democracia e que os direitos humanos são violados. Além de ter corridas em Bahrein, Abu Dhabi e Turquia que são países aonde se viola direitos humanos e tem cerceamento de liberdades.

O que eu quero dizer, se Hamilton não lutasse, não se manifestasse contra o racismo a FIA nada iria fazer, não iria nem tocar no assunto. Em suma, a FIA continua sendo a mesma de antes, a Formula 1 muda de dono, mas a essência elitista e totalmente sem qualquer empatia com quem mais precisa. O que importa para eles é apenas o verde das notas e não o verde das florestas. É a hipocrisia completa de uma entidade que de frente se mostra aberta as pautas necessárias para um mundo melhor, mas por debaixo dos panos, vêm todas as negociatas com ditaduras, com petrodólares e riquezas banhadas de muito sangue de pessoas inocentes, mortas por violarem regras ultrapassadas e inaceitáveis em pleno século XXI.

A Formula 1 Corre no Bahrein – mesmo diante dos manifesto de 2012

Texto: Deivison da Conceição da Silva
Fotos: Mercedes/Latuff/Grupo Sinos/BestLap (forum antigo)

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